23 de julho de 2007

Crônica da cidade do Rio de Janeiro

No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor estende os braços. Debiaxo desses braços os netos dos escravos encontram amparo.

Uma mulher descalça olha o Cristo, lá de baixo, e apontando sue fulgor, diz, muito tristemente:
- Daqui a pouco, já não estará mais aí. Ouvi dizer que vão tirar Ele daí.
- Não se preocupe - tranquiliza uma vizinha. - Não se preocupe: Ele volta.

A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: os atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam os deuses africanos. Cristo sozinho não basta.
O livro dos abraços (Eduardo Galeano)