25 de março de 2007

Navio

Agora sou navio, feita de ferro e aço.

Ancorada próxima à praia, crio raízes e mudo o caminho do mar.
Junto rochas, crio pontes.
Viro passagem e pouso, viro casa.
Viro outra.

Já sinto buracos na couraça rija, já vejo pequenas conchas no meu casco.
Pássaros se aninham nas antigas velas.
A água penetra meu corpo e em febre me confundo.
Virei mar?

Ansiosa, espero uma mensagem trazida pelas ondas.
Daquelas enroladas dentro de uma garrafa, ai...demoradas.
Às vezes, então, desejo que venha rápido, meio pássaro, sei lá, meio ar.
Que viesse e nos transformasse em brisa, em vento fresco.
Em cabaça encantada por miçangas coloridas e sons brincantes...

Fábia Nogueira

22 de março de 2007

Bom dia tristeza

Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você
Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

Elis REgina

16 de março de 2007

DE coração pra coração - Autora Maria Matilde Mariano

História de Cordel

Um dia estava pensando
Quando vi você passar
Seus olhos fitaram os meus
Pra esse amor começar
Pois agora estou contente
Com esse encontro exempla.

Nosso amor eu acredito
Precisava acontecer
Nos meus sonhos de criança
Tinha em todo amanhecer
A esperança de um dia
O destino te trazer.

Vou dizer devagarzinho
É esta a minha ilusão
Não sou ninguém sem você
Será que fiz confusão?..
Tô querendo te dizer
Mais não encontro expressão.

Quero falar com você
Mais ainda não deu certo
Pois só em meu pensamento
Que estás sempre bem perto
Mas se um dia te encontrar
Peço que sejas discreto.

Já é tarde e ainda estou
A procura de alguém
Que um dia me falou
Que o amor que a gente tem
Não se joga fora ou troca
Por outro que ainda vem.

Esse amor é diferente
Vive de mim tão distante
Mas nele vivo a pensar
Não me esqueço um só instante
Porque um amor assim
Na vida é muito importante.

Quando ando pelas ruas
É nele que vou pensando
Meu olhar fica distante
Parece que estou sonhando
Querendo te encontrar
Por isso vivo esperando.

Esse amor contagiante
Com ele eu vivo assim
Mesmo estando separados
O nosso amor não tem fim
Estou querendo que venhas
Pra ficar perto de mim

12 de março de 2007

O silêncio

Essa noite não tem lua
Eu sei porque vi com meus olhos
Além dos luminosos que não brilham mais
Dorme às escuras a lua
Pra onde vai nosso amor,
Nossa sede?
Há tempos que pergunto isso
Nem mesmo Jesus Cristo
Pendurado na parede
Saberia a resposta
Vem comigo, vem
Já tenho quase tudo que me basta
A flor no pasto
A mesa posta
Minha música e teu calor
Agora só me falta aprender o silêncio.

Zeca Baleiro

7 de março de 2007

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha, ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha cabia numa janela.
A lua ficou tão tristecom aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!



Paulo Leminski

6 de março de 2007

Acontece - Cartola

Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.

3 de março de 2007

Senões - Cartola

Nosso Romance
Teve Senões
E se separa
Dois corações
Posso chorar até esquecer
Mas, o meu desejo é viver longe de você
O meu interesse é viver sem você
Nosso passado eu procuro esquecer
Ao grande protetor eu peço uma prece
Senhor, por piedade vê se ela me esquece
O nosso amor, um grande amor, termina assim
Todo romance tem princípio e tem fim

O meu interesse é viver sem você
Nosso passado eu procuro esquecer
Ao grande protetor eu peço uma prece
Senhor, por piedade vê se ela me esquece
O nosso amor, um grande amor, termina assim
Todo romance tem princípio e tem fim

1 de março de 2007

Como explicar o Amor

Contam que, uma vez, se reuniram os sentimentos e qualidades dos homens em um lugar da terra. Quando o ABORRECIMENTO havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tão louca, lhes propôs:
- Vamos brincar de esconde-esconde?
A INTRIGA levantou a sobrancelha intrigada e a CURIOSIDADE, sem poder conter-se, perguntou:
Esconde-esconde? Como é isso?
- É um jogo, explicou a LOUCURA, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem, e quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo.
O ENTUSIASMO dançou seguido pela EUFORIA.A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou convencendo a DÚVIDA e até mesmo a APATIA, que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar. A VERDADE preferiu não esconder-se, para quê? Se no final todos a encontravam? A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela) e a COVARDIA preferiu não arriscar-se.
- Um, dois, três, quatro... - começou a contar a LOUCURA.
A primeira a esconder-se foi a PRESSA, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho. A FÉ subiu ao céu e a INVEJA se escondeu atrás da sombra do TRIUNFO, que com seu próprio esforço, tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta. A GENEROSIDADE quase não consegue esconder-se, pois cada local que encontrava lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos - se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA; se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ; se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPIA; se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E assim, acabou escondendo-se em um raio de sol. O EGOÍSMO, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cómodo, mas apenas para ele. A MENTIRA escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris), e a PAIXÃO e o DESEJO, no centro dos vulcões. O ESQUECIMENTO, não recordo-me onde escondeu-se, mas isso não é o mais importante.
Quando a LOUCURA estava lá pelo 999.999, o AMOR ainda não havia encontrado um local para esconder-se, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou um roseiral e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores.
- Um milhão - contou a LOUCURA, e começou a busca.
A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus no céu sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a PAIXÃO e o DESEJO nos vulcões. Em um descuido encontrou a INVEJA, e claro, pode deduzir onde estava o TRIUNFO. O EGOÍSMO, não teve nem que procurá-lo. Ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas. De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede, e ao aproximar-se de um lago descobriu a BELEZA. A DÚVIDA foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado esconder-se. E assim foi encontrando a todos. O TALENTO entre a erva fresca; a ANGÚSTIA em uma cova escura; a MENTIRA atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano); e até o ESQUECIMENTO, a quem já havia esquecido que estava brincando de esconde-esconde.
Apenas o AMOR não aparecia em nenhum local. A LOUCURA procurou atrás de cada árvore, em baixo de cada rocha do planeta, e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos. A LOUCURA não sabia o que fazer para desculpar-se chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.
Desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na terra: O AMOR é cego e a LOUCURA sempre o acompanha.